3 October 2008

Nunca roubamos nada na nossa vida, roubamos sempre na vida dos outros

Depois de duas semanas repletas de azáfama, finalmente chega-me um fim-de-semana que me oferece (obrigada!) algum tempinho para cultivar os meus gostos predilectos: leitura, escrita e cinema. Entre as linhas ("tortas, porque tudo é labirinto") de um Saramago e de um Carlos de Oliveira (que ando a redescobrir, agora mais a fundo - comecei por vislumbrar Uma Abelha na Chuva, que já me andava a perseguir há alguns anos; o que tem que ser tem muita força) acabei por esbarrar, é este mesmo o termo, com a película A Jangada de Pedra, de 2002. Claro que já estão a pensar "mas esta tipa só lê/vê o tal do Nobel, pois bem, confesso que é verdade; podia ser bem pior, como, por exemplo, poderia ter para ali, em vez de um Ano da Morte de Ricardo Reis ou História do Cerco de Lisboa, e até me custa escrever isto, porra, (não o porra; este devia até vir seguido de um caraças carago!), uns quantos exemplares de um Paulo Coelho ou de uma Margarida Rebelo Pinto (e neste momento, um pouco à semelhança do "Telerural", cuspo para o chão - pedindo-lhe descula que esse não tem culpa nenhuma, e muitos de nós - como eu, mas só às vezes - deveriam pedir licença, de quando em vez, para o pisar...). Brado aos céus por tal sageza. Sem ironias.

Mas dizia (isto de palavra-puxa-palavra) que vi o filme e, pronto, gostei não tanto pelo filme em si, mas mais pelo evocar da obra a que se refere. E uso o termo "referência" na medida em que há aí muito de descritivo. Um evocar que não mostra muito da mundividência mágica saramaguiana. O enredo anda muito mais em volta da amizade entre cinco personagens do que em redor da ideia da Península Ibérica como jangada que parte rumo a um novo mundo. Pormenores que de certo modo fugiram demasiado ao romance por culpa do orçamento e da livre interpretação do realizador (George Sluizer, holandês, facto curioso...), porque, afinal, um filme é sempre um interpretar e, por conseguinte, uma redução. No entanto, e convém dizê-lo, isso aconteceu esporadicamente, pois há na fita espaço para a reflexão. A mim deixou-me a pensar acerca do que é ser-se Ibérico (português-espanhol?) É impossível não pensar nessa declaração política que o autor faz e que, a meu ver, escapa no ecrã (aliás parece que a realidade ibérica se assemelha a um western...bastante pícaro.).


Para terminar este meu prelúdio, sim, ainda mal comecei, partilho convosco as minhas impressões aquando da minha primeira leitura do citado romance (isto porque tenho como hábito fazer uma espécie de sinópse de tudo quanto leio - para mais tarde recordar):

A Jangada de pedra: enredo que anda à volta de uma irrealidade que nas palavras de Saramago ganha realidade. Tudo é possível. Joaquim atirou uma pedra ao mar, Pedro Orce, espanhol, sente a terra a tremer, José tem um bando de estorninhos sempre atrás dele e Joana Carda fez um risco no chão que nunca desaparece. Além disso, há um cão que, com o consentimento de Maria Guavira, foi ao encontro destas personagens na altura em que a Península Ibérica era uma jangada de pedra, à deriva em pleno Oceano, correndo o risco de embater contra o arquipélago dos Açores. Há um labirinto, há um fio, a Ariadne está lá. Teseu também. Pena que uma vez mais Dédalo não fosse sensato. O Minotauro é capaz de tudo.
P.S.: Isto no dia da estreia do filme "Blindness" nos EUA, realizado por Fernado Meirelles.

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