9 August 2008

O todo

Ainda não consegui materializar sentimentos. Ainda bem. Esses devem permanecer no seu mais íntimo conteúdo. Para mim não há forma sem conteúdo; sim, é verdade, sou uma apologista do formalismo russo. É como um envelope. De que serve se não tiver conteúdo? As palavras são o tudo do todo, o invólucro é apenas um acessório da parte.
Talvez aí resida a cumplicidade da troca das palavras, pois elas valem por si só. Reitero, estão e são elas próprias que nos encaminham para os nossos mundos reais e/ou oníricos. Às vezes, é melhor ter pouco ou nada para poder sonhar com o muito ou o tudo. O sonhar é sempre mais perfeito, mais completo, mais verdadeiro, mais nosso.
Conhecer significa “ver para além de”; mudar as perspectivas incessantemente, tal qual um fotógrafo para poder apanhar o melhor ângulo de visão. E a óptica é o coração, com biliões de mega pixels, cuja bateria é a ânsia de ir à procura do desconhecido. Parece uma redundância, porém, convém frisar que, a maior parte das vezes, andamos à procura do conhecido: da rotina; da monotonia; dos olhares partilhados; das frases feitas. Contudo, apenas a mudança é constante na realidade. É irónico, portanto, pensar que temos medo da mudança. Não, o mais comum dos mortais tem medo é da constância, daí que viva preso a ela. Não é verdade que são os medos que nos prendem, nos limitam? Nos pressionam para o que há de padronizado? Pensando nos padrões sociais, concluo que, afinal, esta minha constatação tem repercussões graves: todos corremos, todos procuramos no quotidiano (na televisão, nos jornais, nas lojas, nas conversas, nos amigos) a diferença para que ela nos liberte da trivialidade que dizemos venerar. Será que a encontramos?
Eu talvez já tenha encontrado parte dela, mas também não quero encontrá-la em bruto; isso seria desgastante e pouco proveitoso. Como as mós de um moinho, é necessário fazer farinha da vida pacientemente. As águas de um corpo perdido em grãos de suor. Esse sabor a saber. E depois saboreia-se o pão que sustenta o faminto sonhador.
Nem só de pão vive o homem. Palavras. Palavras…

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