Urbzi et orbi,
Esta certeza de não ter certeza nenhuma prende-se com uma outra: a verdade é feita de muitas mentiras. Então, o que seria uno é agora múltiplo e a realidade não existe. Se calhar deveria dizer realidades, no plural, sim, para ser coerente. Paralelas? Perpendiculares? Apenas linhas que traço no espaço labiríntico que os meus passos deixam antever. Nem preciso de compasso (só se for musical), nem de esquadro. Mas, cuidado, porque há por aí ainda muita sociedade secreta (L.U.A.R). Mitos? Porquê esta necessidade de explicar o inexplicável?
É difícil resignarmos à nossa insignificância, acrescendo do facto de sermos meras marionetas numa linha de montagem, cujos mecanismos capitalistas nos asfixiam e nos transformam, macabramente, em mais um número. Clones de carne e osso num cenário demasiadamente complexo em que o argumento ilogicamente estereotipado (Não serão todos os estereótipos incoerentes? Pleonasmo?) nos conduz à estupidez de modo inconsciente. Já ninguém questiona, reflecte, duvida cartesianamente do Mundo, porque há quem o faça por nós, contudo, em seu proveito próprio. É mais fácil ligar um botão e absorver tudo o que um ecrã nos fornece, seja bom, seja mau. Não interessa. Fica-nos a sensação que estamos a comandar a nossa existência por nós próprios: uma anarquia camuflada de democracia (utopia?). Mas as sensações são enganadoras. É um ter e um nada ser.
Não serei eu também mais um fantoche? Sim, claro. Mas eu não corro o risco de ser alvo de conspiração, porque embora seja um número, tenho um só dígito:o zero. Este anonimato é ainda a tábua de salvação para os comuns dos mortais, até que, hipocrita e ironicamente, uma guerra, um atentado orquestrados os vitimize. Um ciclo vicioso, um ponto sem retorno. Soluções? Será que as há?
Quando irão as máscaras cair? Vivemos numa tragédia humana...No tempo de Aristóteles havia ainda quem nos falasse da alegoria da caverna, das dicotomias e dialécticas subjacentes ao emprisionamento humano. Os filósofos estão, no entanto, todos mortos! E assim ficamos acorrentados a uns medos, que nem sempre sabemos compreender, nem queremos, ficando estupefactos a seguir as sombras dos outros.
O problema torna-se mais grave quando não se sabe se a catástrofe já se deu ou se está para vir, porque parece ser impossível prever, ver, avaliar. As cortinas permanecem içadas e o pathos está em crescendo. Se estamos na exposição ou já no conflito...não se sabe...Porque quando tudo parece direito, está do avesso e vice-versa. Enganos...em cadeia, em efeito dominó. Dominus...? Ipsis verbis...
No entanto, a palavra continua a ser o veículo de todo este teatro. A comosgonia, um modo de o verbo se unir ao mundo. Cada língua é uma experiência, pessoal e colectiva. É, por conseguinte, imprescíndivel redescobrir o Noema (significação) e a Noese (querer dizer). O mundo do poeta é o mundo dele. Ele constrói-se através de símbolos. Assim, há que matar de vez as metáforas mortas para delas surgirem o Bios, encarnado nos símbolos para que a partir deles possamos criar novos modos de estar-no-mundo. Com efeito, há necessidade de trazer à linguagem modos de ser que a visão ordinária obscurece ou até reprime. Porque todos podemos ser poetas.


1 comment:
Fabuloso este...Também penso assim..
béns Clara
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