Acabo de ler, de uma assentada só, História De Um Hipocondríaco Que Queria Pôr o Cê de Cedilha no Alfabeto, de Filipe Cabral Pinto, edição Maio de 2004 e fiquei um quanto apreensiva com o seu fim insólito. Aliás, este texto é, no mínimo, surpreendente. De facto, recomendo-o, sobretudo pelo fantástico que oferece, porventura, a leitores ansiosos pela diferença. O enredo resume-se ao seu título, mas que, a meu modesto ver, foge um pouco à criatividade que deixa adivinhar nas expectativas primeiras que, provavelmente, somos instigados a conjecturar. No entanto, leiam-no e tirem as vossas ilações - depois falamos. 
Deixo-vos uma passagem para vos aguçar a curiosidade; trecho sobre uma -possível- teoria acerca da descoberta de Newton, o qual me impressionou pelo cómico, pelo burlesco, pela desconformidade:
“Newton pagou por descuido o excesso e agradeceu por diversas vezes a qualidade do atendimento e saiu a cambalear do típico restaurante a que costumava ir. Agarrou-se com hesitação às paredes rugosas da casa e dirigiu-se entorpecido para o campo, em busca de uma soneca que lhe devolvesse o discernimento pleno e a tão necessária coordenação motora (…) aproveitou para descansar ali mesmo, naquele pomar sem cerca, e deitou-se sob a protecção fresca da ramagem da macieira. Esparramou-se ao comprido, aconchegou a cabeça e foi levado pelos sonhos para locais muito distantes da província. Enquanto viajava em espírito quase descobriu a teoria da relatividade. Chegou mesmo a pensar que a energia era igual à massa vezes o quadrado da velocidade da luz, mas, embriagado pelo álcool, disse de si para si, que disparate, e pôs-se a pensar como facilmente gastaria toda a sua energia, de uma forma bem mais rápida do que o quadrado da velocidade da luz (…), na massa firme do corpo da simpática mulher do restaurante.
Estava o famoso cientista em contemplações pouco puritanas quando a mãe Natureza decidiu estragar-lhe o agradável momento. A árvore libertou de um dos ramos uma maça que caiu e lhe acertou em cheio na cabeça. Perante este incidente desagradável, Newton, ainda estonteado pelo acontecimento, lá desabafou:
-Bem que a porra das maças podiam cair para cima. (…)
Espantosamente, depois de soltar esta frase de génio, o seu cérebro, aparentemente alcoolizado, despoletou teorias vanguardistas, abarcando todo um conjunto de conceitos matemáticos que, juntos, traduziriam em fórmulas elementares o fenómeno da gravitação. É claro que podemos sempre especular o que teria acontecido se, em vez da soneca de Newton debaixo da macieira, o nosso cientista tivesse ido curar a sua borracheira num vulgar prostíbulo. Imaginemos que Newton, perdido nos braços de uma audaciosa rameira, se encontrava em plena transição física, a passar de um estado de inércia pura para uma postura de erecção violenta. Se todo o brilhante raciocínio sobre a gravidade surgisse nesse preciso momento de devir, de transformação premente, teríamos, com toda a certeza, nos dias de hoje uma outra definição de força gravítica, alterada significativamente e que, em vez de apontar para o centro da terra, apontaria para cima, para o céu, e culminaria numa troca de sentidos das forças, levando o mundo a um descalabro total, desequilibrando todas as evidências, e remeteria o conhecimento definitivamente para o domínio da sexualidade.”p. 50-51, Pé de Página Editores, 2004.

Deixo-vos uma passagem para vos aguçar a curiosidade; trecho sobre uma -possível- teoria acerca da descoberta de Newton, o qual me impressionou pelo cómico, pelo burlesco, pela desconformidade:
“Newton pagou por descuido o excesso e agradeceu por diversas vezes a qualidade do atendimento e saiu a cambalear do típico restaurante a que costumava ir. Agarrou-se com hesitação às paredes rugosas da casa e dirigiu-se entorpecido para o campo, em busca de uma soneca que lhe devolvesse o discernimento pleno e a tão necessária coordenação motora (…) aproveitou para descansar ali mesmo, naquele pomar sem cerca, e deitou-se sob a protecção fresca da ramagem da macieira. Esparramou-se ao comprido, aconchegou a cabeça e foi levado pelos sonhos para locais muito distantes da província. Enquanto viajava em espírito quase descobriu a teoria da relatividade. Chegou mesmo a pensar que a energia era igual à massa vezes o quadrado da velocidade da luz, mas, embriagado pelo álcool, disse de si para si, que disparate, e pôs-se a pensar como facilmente gastaria toda a sua energia, de uma forma bem mais rápida do que o quadrado da velocidade da luz (…), na massa firme do corpo da simpática mulher do restaurante.
Estava o famoso cientista em contemplações pouco puritanas quando a mãe Natureza decidiu estragar-lhe o agradável momento. A árvore libertou de um dos ramos uma maça que caiu e lhe acertou em cheio na cabeça. Perante este incidente desagradável, Newton, ainda estonteado pelo acontecimento, lá desabafou:
-Bem que a porra das maças podiam cair para cima. (…)
Espantosamente, depois de soltar esta frase de génio, o seu cérebro, aparentemente alcoolizado, despoletou teorias vanguardistas, abarcando todo um conjunto de conceitos matemáticos que, juntos, traduziriam em fórmulas elementares o fenómeno da gravitação. É claro que podemos sempre especular o que teria acontecido se, em vez da soneca de Newton debaixo da macieira, o nosso cientista tivesse ido curar a sua borracheira num vulgar prostíbulo. Imaginemos que Newton, perdido nos braços de uma audaciosa rameira, se encontrava em plena transição física, a passar de um estado de inércia pura para uma postura de erecção violenta. Se todo o brilhante raciocínio sobre a gravidade surgisse nesse preciso momento de devir, de transformação premente, teríamos, com toda a certeza, nos dias de hoje uma outra definição de força gravítica, alterada significativamente e que, em vez de apontar para o centro da terra, apontaria para cima, para o céu, e culminaria numa troca de sentidos das forças, levando o mundo a um descalabro total, desequilibrando todas as evidências, e remeteria o conhecimento definitivamente para o domínio da sexualidade.”p. 50-51, Pé de Página Editores, 2004.


1 comment:
Oi linda!
parece-me ser um bom livro!
Interessante!
beijo...
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